Glossário

Allan Cob e Rafael Florêncio

 

Fetichismo da Mercadoria: A condição da sociabilização moderna, analisado por Marx no capítulo 1 de O capital. Refere-se a inversão operada entre homens e mercadorias na sociedade moderna pelo capitalismo. Essa sociabilização se define por uma relação entre mercadorias que adquirem uma forma social (ver: forma-valor) e uma relação entre homens que adquire a forma de objetos (ver: reificação). O fetichismo da mercadoria tem um decorrência imediata sobre o processo de construção de conhecimento, sobre às ciências e às ideologias, uma vez que recoloca o estatuto do conhecimento objetivo como representação fetichista. Para Robert Kurz o fetichismo pode ser definido como a condição em que uma sociedade que não tem "consciência de si mesma, não penetra nem organiza diretamente na prática sua própria forma de sociabilização, mas sim tem que representá-la simbolicamente em um objeto externo" (O Colapso da Modernização)

Forças Produtivas: Todos os meios da produção social: os meios de produção não produzidos (naturais, como o solo ou a água), as ferramentas, máquinas, técnicas, ciências e tecnologias.

Forma-Valor: a forma de mediação social característica da sociedade moderna, através das trocas. A forma-valor é um tipo de mediação social no qual a troca é possibilitada pela comparação da quantidade socialmente necessária de trabalho (valor) que cada mercadoria contém. Assim, se um sapato leva três horas para ser produzido ele terá o valor de um chapéu, caso o chapéu leve três horas para ser produzido. As mercadorias são trocadas de acordo com a quantidade de valor que contém. Essa comparação só é possível mediante a abstração de todas as qualidades sensíveis da mercadoria (ou seja da abstração de seu valor-de-uso) e a comparação de seu valor de troca. O que determina a sociabilização capitalista é a relação entre os valores-de-troca, ou simplesmente os valores, das mercadorias. Sem esquecer, é claro, que este movimento é orientado pela tautologia da valorização, a forma-valor existe para fazer o valor valorizar em si mesmo.

Materialismo Histórico: O materialismo histórico é o método utilizado por Marx para estudar a forma de realização do modo de produção capitalista.,Parte da análise dialética da relação entre forças produtivas e relações sociais de produção (as diferentes formas relações de trabalho) dentro de seu desenvolvimento histórico. Essa relação, que ocorre entre a estrutura do modo de produção e a sua infra-estrutura, produzem super-estruturas, como as Ideologias e as Instituições (Estado). É dentro dessa concepção materialista da história, que o socialismo soviético realiza uma transformação na estrutura do modo-de-produção, almejando uma transformação total da sociedade, inclusive de suas ideologias.

Mais-Valia: Na teoria do valor de Marx é a parcela do valor adicionado à mercadoria durante o processo de produção através do trabalho. Uma parte desse valor produzido é expropriada do trabalhador por parte do donos dos meios-de-produção. A outra parte vai compor o seu salário.

Ontologia: Doutrina filosófica sobre a condição ou lógica específica do ser do Homem. Kurz se utiliza desse termo para criticar um movimento teórico que se realiza à revelia do processo histórico de formação dos seus próprios conceitos. Em algumas traduções se utiliza o termo trans-histórico.

"Se o fosse de todo, a ontologia seria possível sob um ponto de vista irónico, como o supra-sumo da negatividade... Se quiséssemos esboçar uma ontologia e, ao fazê-lo, ater-nos ao facto fundamental, cuja repetição faz dele uma invariante, o resultado seria o horror...; bom é tão-só o que escapou à ontologia". - Theodor W. Adorno, Dialéctica Negativa

Queda Tendencial da Taxa de Lucro: Uma das leis do movimento do capitalismo analisadas por Marx em O Capital. Se refere a relação inversamente proporcional entre o aumento do capital constante (meios de produção) e a diminuição do capital variável (trabalho). As empresas, em concorrência, precisam sempre buscar formas mais lucrativas de produzir. Uma das formas que encontram é o investimento em máquinas na substituição do trabalho humano. Acontece que com essa substituição de trabalho vivo por trabalho morto, a valorização de capital diminui relativamente à processos de produção com mais trabalho vivo na composição orgânica do capital da empresa. Essa tendência faz a taxa de lucro cair proporcionalmente ao investimento em capital constante, o que acaba exigindo um aumento absoluto da produção por causa do aumento da produtividade relativa.

Reificação: Sociabilização entre homens na forma de relação entre objetos. Transformação do homem em objeto. Uma vez que a sociabilização capitalista se dá pela compra e venda da força-de-trabalho, como mercadorias, e portanto sujeitas a forma-valor, esses sujeitos vão se relacionar na forma de mercadorias, e portanto como obejtos.

Trabalho Abstrato: Trabalho produtor de Valor. Forma da produção do valor, historicamente formada pelo processo de modernização. Essa atividade concreta de mediação social se realiza através da compra e venda da mercadoria força de trabalho. O trabalho abstrato é indiferente ao conteúdo concreto da atividade e/ou da mercadoria produzida. É uma atividade anônima de produção de uma mercadoria em função da possibilidade da troca.. Somente na Modernidade é que a atividade abstrada de produção de mercadorias para a valorização de capital assume a centralidade social (criando uma ética coercitiva do trabalho generalizada). Assim como somente na modernidade é que todas as atividades de sociabilização são reduzidas a forma abstrata da produção do valor.

"Trabalho abstrato: gasto indiferenciado de energia humana, pelo fato de estabelecer uma relação de equivalência entre os variadíssimos trabalhos concretos, vem a ser a substância do valor." (O Capital, Apresentação por Jacob Gorender, p.31. Ed. Nova Cultural, 1996.)

"Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho [operação exigida pela forma da troca], desaparece o caráter útil dos trabalhos neles representados, e desaparecem também, portanto, as diferentes formas concretas desses trabalhos, que deixam de diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual trabalho humano, a trabalho humano abstrato" O Capital, Livro 1, capítulo 1, A Mercadoria. p.168-169. Ed. Nova Cultural, 1996.

"O 'trabalho' é, em sua essência, a actividade não livre, não humana, não social, determinada pela propriedade privada e criando a propriedade privada. A superação da propriedade privada se efectivará somente quando ela for concebida como superação do 'trabalho'." (Karl Marx, Sobre o livro "O sistema nacional da economia política" de Friedrich List, 1845)

Teoria do valor ou do valor-trabalho: Teoria econômica desenvolvida por Karl Marx a partir de economista clássicos como D.Ricardo e A.Smith. A teoria procura explicar o modo de produção capitalista a partir da relação entre Capital e Trabalho. Existe uma dialética (um movimento entre um par de opostos que se negam) entre as forças produtivas e as relações sociais de produção. É a teoria que define o fundamento da valorização do valor na sociedade capitalista e que tem no trabalho o seu fundamento negativo.

Teoria crítica do valor-dissociação: Teoria desenvolvida pelo Grupo Krisis que orienta a superação do fundamento da socidade moderna: a forma-mercadoria, através da crítica da redução social às categorias positivas da teoria-do-valor marxista. Crítica do processo de modernização e da imposição da forma-mercadoria. Valor-dissociação se refere à outra categoria fundamental do processo de modernização, a dissociação sexual, pois o patricarcado é uma condição co-originária à forma-mercadoria. Também chamada de crítica categorial, pois faz a crítica às categorias fetichistas da teoria marxista na medida em que expõe a crise das próprias cateogorias: a crise de valorização de capital e a negação do fundamento do valor (trabalho) intensificadas com a 3ª revolução industrial (microeletrônica).

Ideologia: Em sua origem, o termo foi (literalmente) inventado por Destut de Tracy, que vai publicar, em 1801 um tratado, Elementos de ideologia, apresentando esta nova “ciência das idéias” como uma parte da zoologia, logo se inscreve em uma perspectiva metodológica do tipo empirista e científico-naturalista, isto é, positivista. Karl Marx retoma o termo no séc XIX onde ideologia é uma forma de falsa consciência, correspondendo a interesses de classe. Designa o conjunto de idéias especulativas e ilusórias (socialmente determinadas) que os homens formam sobre a realidade, através da moral, da religião, da metafísica, dos sistemas filosóficos, das doutrinas políticas e econômicas etc. Lênin no séc.XX designa ideologia como o conjunto das concepções de mundo ligadas ás classes sociais, incluindo o marxismo. Com esta significação que o termo entrou na língua corrente dos militantes marxistas (“luta ideológica”, “ideologia revolucionária”, “formação ideológica”,etc...). Karl Mannheim dá legitimidade ao termo na universidade através do conceito de “ideologia total”, definida como a estrutura categorizada, a perspectiva global, o estilo de pensamento ligado a uma posição social. Porém, ele atribui outra significação ao termo: ideologia designa então os sistemas de representação que se orientam na direção da estabilização e da reprodução da ordem vigente.

Positivismo: Método de análise originário do pensamento iluminista. Elaborado por August Comte, porém, toma forma como disciplina científica na obra de Durkaheim. Fundamentado na doutrina da neutralidade axiológica do saber, em sua figuração ideal típica, se estrutura em um sistema de premissas coerente e operacional, que se constituí na visão de quê a sociedade é regida por leis naturais, invariáveis e independentes da vontade e ação humanas. A sociedade pode portanto ser epistemologicamente assimilada pela natureza e estudada com os mesmos métodos, démarches, e processos empregados pelas ciências da natureza. Ambas devem então se limitar a observação e a explicação causal dos fenômenos de forma objetiva, neutra, livre de julgamentos de valor ou ideologias, descartando previamente todas as prenoções e preconceitos.